EM BUSCA DO ADENSAMENTO INTELIGENTE

19 de dezembro de 2019 • Entrevista

Por: Por Fabio Pahim Jr

O Secovi-SP tem olhos num futuro em que “São Paulo terá de rever seus conceitos de habitação” e pés no presente, pois inflação e juros menores trouxeram confiança para mutuários finais que tomam crédito a custos cada vez menores e para incorporadores que voltam a lançar projetos.

 

Metrópoles como São Paulo têm de aproveitar ao máximo a infraestrutura urbana – bairros bem iluminados e seguros, servidos por metrô, comércio e lazer, cinemas, restaurantes e museus, além de serviços de saúde – para oferecer moradia. Adensar, isto é, construir prédios residenciais e comerciais em áreas com infraestrutura é o primeiro objetivo dos empreendedores imobiliários. Mas o presidente do sindicato da habitação (Secovi-SP), Basílio Jafet, enfatiza que é preciso buscar o “adensamento inteligente”, expressão usada em artigo recente para definir a necessidade de se valer de investimentos públicos já realizados para permitir que os cidadãos vivam melhor. Em vez de gastar horas para se deslocar de casa para o trabalho ou para o lazer, o ideal é fazer tudo nas proximidades. Se possível, a pé.

 

Investir em áreas centrais, que permitam melhor qualidade de vida aos moradores, é mais atraente num ambiente macroeconômico estimulante, com inflação baixa e juros em queda. “Após cinco anos de demanda reprimida, o ambiente econômico mais positivo gera confiança no comprador de imóveis”, afirma Jafet nesta entrevista à ABECIP – REVISTA DO SFI.

 

Há hoje, diz ele, uma competição saudável entre os bancos na oferta de crédito imobiliário, com “prestações menores em um terço do que há um ano”. E também há novas linhas de financiamento, bem aceitas pelas famílias, como aquelas com correção pelo IPCA, lançadas em setembro. Além disso, as incorporadoras levam em conta, ao investir, que “o problema dos distratos foi equacionado” – ou seja, essa legítima jabuticaba brasileira perdeu sabor.

 

 

SEMELHANÇA

 

Há uma semelhança entre as metrópoles adensadas com inteligência defendidas hoje por Basílio e a então tranquila São Paulo escolhida pela família Jafet em fins do século 19 como porto seguro distante das tensões entre maronitas e drusos que convulsionavam o Líbano naqueles tempos distantes. No Ipiranga os Jafet identificaram a possibilidade de instalar fábricas, escritórios, vilas operárias e palacetes familiares num mesmo bairro, onde era possível fazer a pé o caminho entre a residência, o trabalho e o lazer.

 

São Paulo era então foco dos sonhos de prosperidade alimentados por imigrantes e prometidos pela América – não só a do Norte, mas até a América Latina.

 

Mas foi por pura coincidência que os Jafet adentraram a história do Brasil. Em 1872, o imperador Dom Pedro II visitou o Oriente Médio e foi à cidadezinha montanhosa de Dhour El Choueir, espécie de Campos do Jordão a 30 km de Beirute, no Líbano. Visitou uma escola e sentou-se ao lado do menino Nami Jafet, que viria a ser o fundador da grande família Jafet que até hoje marca o bairro do Ipiranga, com escritórios ao lado do Museu do Ipiranga, em São Paulo. Ao adolescente Nami, Dom Pedro II transmitiu a ideia de um Brasil promissor.

 

Duas décadas depois do encontro com o imperador, ou seja, há 130 anos, quando Nami Jafet já era um professor de matemática na Universidade Americana de Beirute, seus filhos Benjamin, Basílio, João e Nami vieram de Beirute para São Paulo para tentar uma nova vida. E encontraram um mercado pronto para receber vendedores de tecidos, qual mascates que batiam de porta em porta para oferecer suas mercadorias. Nascia ali um incipiente comércio varejista de tecidos, mas cujos resultados foram tão bons que permitiram aos irmãos Jafet ganhar dinheiro bastante para investir em indústria têxtil, mineração, siderurgia. E depois em serviços financeiros, até chegar à política e à prática da filantropia. Doaram grandes áreas para a construção de igrejas, clubes esportivos, associações beneméritas e para o Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP). Outra grande doação foi feita à Universidade Americana de Beirute.

 

Ricardo Jafet, tio do atual presidente do Secovi-SP, atuou na política e presidiu o Banco do Brasil na era Vargas. Basílio Jafet, bisavô do presidente do Secovi-SP, teve por esposa Adma Jafet, que fundou e presidiu durante 50 anos a Sociedade Beneficente de Senhoras que criou o Hospital Sírio-Libanês, dá nome à rua onde se situa a casa de saúde. Aposentou-se aos 105 anos e viveu até os 109 anos. O terreno do Sírio-Libanês foi doado pelos Jafet. A regra de que só mulheres dirigem a Sociedade Beneficente nasceu na primeira metade do século passado e vige até hoje.

 

Basílio Jafet está no Secovi-SP há muito e já presidiu a organização irmã Fiabci, que representa o sindicato da habitação em escala global. Está entre muitos libaneses que fizeram época na área imobiliária e na construção civil paulistana, como os Chap Chap, Rizkallah, Abdalla, Yazbek e tantos outros. Há décadas a mais conhecida liderança do Secovi-SP é Romeu Chap Chap, que transformou o sindicato num dos mais fortes do País, com milhares de associados e múltiplas atividades, como a Universidade Secovi.

 

 

É DO FUTURO QUE SE TRATA

 

Basílio Jafet trabalha num palacete de 1924 tombado pelo Patrimônio Histórico e situado na Rua Costa Aguiar, no Ipiranga, um bairro onde os espaços sofreram grande influência da família Jafet desde a primeira metade do século passado. Ao lado do primo Flávio dirige a Jafet S.A., uma empresa familiar (com 43 acionistas, todos primos) responsável pela administração dos bens imóveis da família – prédios comerciais e galpões industriais –, além de minas de ferro, que estão arrendadas.

 

Mas é no futuro que Basílio Jafet concentra suas atenções.

 

O foco do Secovi-SP é o aperfeiçoamento dos conceitos de moradia e legislação urbana. “São Paulo está muito atrás das grandes metrópoles, presa a conceitos arcaicos”, diz Basílio. Entre seus projetos à frente do sindicato está o de “colar São Paulo no século 21, com ênfase na mobilidade, no lazer e nas moradias em áreas com serviços públicos”. Como afirmou em artigo publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo: “Gestores e urbanistas das grandes cidades do mundo perceberam que as áreas para se viver são finitas e que as populações continuarão crescendo. Para se adaptar a esse fato inexorável, a maioria está revendo suas leis urbanísticas e promovendo o chamado adensamento inteligente. Assim, estão otimizando os espaços, introduzindo economias de escala e melhorando a qualidade de vida”.

 

Na direção do Secovi-SP desde janeiro de 2019, quando passou da vice-presidência para a presidência sucedendo Flávio Amary, secretário de Habitação do governo paulista de João Dória, Basílio quer “centralizar os habitantes em perímetros que ofereçam simultaneamente comércio, escolas, shoppings, hospitais, etc. reduzindo deslocamentos”.

 

O prazo para o ajuste de rumos já está dado. Em 2021, o Plano Diretor do município será revisto. “Vamos propor uma revisão conceitual do Plano”, diz Basílio. Hoje, como enfatizou em artigo, a Lei do Zoneamento restringe a construção em 96% do território paulistano. “Vamos agir politicamente, mas sem vínculos com partidos”.

 

O próprio Secovi-SP se reinventa. Sem contar com a contribuição sindical obrigatória paga pelos associados, tem de se financiar por outros meios. “Somos a favor de que não exista contribuição obrigatória”, assinala Jafet. “Se temos de receber dinheiro, que seja pelo nosso esforço”.

 

Essa é uma parte de desafios mais amplos, o maior dos quais é o futuro das empresas imobiliárias e das cidades que recebem famílias de toda parte. “O futuro será muito diferente do presente”, afirma. É preciso se adaptar. As novas gerações – “os millenials, meus filhos incluídos” – não têm a mesma visão de propriedade que têm os mais velhos.