O crédito imobiliário vive um “raro momento”

24 de novembro de 2020 • Entrevista

Por: Fábio Pahim Jr. 

Entre os segmentos mais promissores para a recuperação da economia brasileira está o crédito imobiliário, afirma Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da consultoria Tendências. O setor, enfatiza, “está vivendo um momento raro” e com perspectivas muito favoráveis, pois os bancos querem ampliar sua presença no financiamento habitacional e disputam clientes, ao mesmo tempo em que se tornam “mais fluidos” os mecanismos de migração de contratos, via portabilidade.

 

O ambiente global tende a contribuir para a melhora. A vitória de Joe Biden e dos democratas significa mais crescimento nos Estados Unidos, o que é bom para o mundo, assinala Loyola. Representa, ainda, um avanço rumo ao fortalecimento das instituições multilaterais, o que contribuirá para reduzir tensões e empurrar a economia. Mas o Brasil, alerta, terá de se adaptar a uma nova agenda ambiental.

 

A seguir, os pontos principais desta entrevista a Fábio Pahim Jr., editor da Revista da Abecip:

 

Revista da AbecipQuais as perspectivas para o crescimento do crédito imobiliário neste final de ano e em 2021?

 

Gustavo Loyola – O crédito imobiliário está vivendo um momento raro, com perspectivas muito favoráveis. Resolvida a questão da oferta e com juros baixos, os bancos têm disposição de emprestar, há uma batalha pelos clientes fiéis e mecanismos de migração muito mais fluidos do que no passado, via portabilidade. Com o open banking, isso será muito mais acentuado. E surgem novos produtos, como o uso do imóvel como garantia de empréstimo. O Banco Central busca criar novas normas que contribuirão para a oferta de recursos. Do ponto de vista da demanda, á o impacto da crise para a renda das famílias, mas o País deve voltar a crescer em 2021. A economia poderá crescer 3,5%, apesar do fim do coronavoucher. A dúvida maior vem dos segmentos de baixa renda, pois embora as taxas de mercado tenham caído, grande parte da população precisa subsídios e há a questão fiscal pela frente. Já nas faixas média e alta a situação vai bem. O funding é amplo e há mecanismos novos, que abrem a possibilidade de expansão forte.

 

Revista da Abecip – Como avalia o salto das cadernetas de poupança em 2020?

 

G.L. – A população como um todo, em função das incertezas, acabou poupando mais, principalmente em decorrência do covid-19. Mas isso não explica tudo. Houve uma migração dos ativos financeiros de maior risco. O diferencial de juro caiu e a caderneta ficou entre os ativos mais seguros. Houve uma migração para depósitos, não só de poupança. Para 2021, não espero mudanças maiores na taxa de juros, com a Selic se mantendo estável, mas se se confirmar que há uma vacina eficaz, o consumo será favorecido. Não acredito em redução nas cadernetas, não vejo mudança de tendência.

 

Revista da Abecip –Em que medida o crédito imobiliário, na sua visão, depende de juros baixos, sabendo-se que as taxas de longo prazo estão mais altas?

 

 G.L. – Está tudo precificado. A época dos juros muito altos me parece que não volta mais. Estamos falando em flutuações muito menos intensas. Grande parte dos financiamentos é vinculada à TR e o spread está precificado. Há agora outras modalidades, em IPCA ou taxa fixa. Quanto menor o juro, melhor para o financiado.

 

Revista da Abecip –Qual é o seu grau de preocupação com uma volta da inflação, que apareceu nos últimos meses?

 

G.L. – Estou bastante tranquilo, pois decorre de um problema relativo à oferta de alimentos. Está atingindo muito as faixas de baixa renda, que demandam bens de consumo, mas com a safra o problema tende a refluir. A cotação do dólar também é relevante. Internamente, isso depende de responsabilidade fiscal, teto de gastos, orçamento caminhando para o equilíbrio…

 

Revista da Abecip –Como avalia a situação do crédito em geral, por exemplo, na relação crédito/PIB, que voltou à casa dos 50% mais ainda não chegou a níveis passados?

 

G.L. – Após o choque muito grande com o covid-19, a reação do governo foi bastante positiva e tem permitido níveis de inadimplência muito baixos. Houve medidas de governo que ajudaram a travessia. O crédito sofreu, outros negócios perderam quase totalmente suas receitas, houve aumento do risco de crédito, mas as decisões oficiais contribuíram para mitigar os riscos. A economia se normalizando também vai ajudar o crédito a se normalizar e se recuperar. É difícil cravar um número para a relação entre o crédito e o Produto Interno Bruto (PIB), mas a tendência é de recuperação, provavelmente ainda não em 2021.

 

Revista da AbecipEmpresas da área imobiliária estão voltando a lançar ações novas, via IPOs. Como vê esse processo?

 

G.L. – É parte desse momento de liquidez, que beneficia o mercado de capitais, não só via IPOs. Alguns segmentos têm mostrado resultados muito positivos, como o setor imobiliário. Isso é visível nas ruas de São Paulo. As construtoras estão animadas. Os juros baixos também incentivam as pessoas a investir mais em imóveis, inclusive por conta da pandemia, em que se fica mais em casa. As construtoras que superaram a crise estão mais fortalecidas e partir para as oportunidades de mercado.

 

Revista da Abecip –Como vê o resultado das eleições norte-americanas e suas implicações para a economia brasileira?

 

G.L. – Joe Biden e os democratas no poder significam mais crescimento nos Estados Unidos, o que é bom para o mundo. A postura de Biden de trabalhar com organismos multilaterais vai ajudar. As tensões políticas Estados Unidos-China serão menores, dado o estilo menos turbulento de Biden. O Brasil talvez sofra em função de equívocos diplomáticos.  Países têm interesses. O Brasil corre o risco de perder aliados devido à sua agenda para o meio ambiente.

 

Revista da Abecip –Acredita que há boas saídas para a situação fiscal brasileira?

 

G.L. – Não há saídas fáceis. Vamos terminar 2020 com a relação dívida/PIB de 100% e déficit primário de 10% do PIBN, explicáveis pela pandemia, por gastos com programas de estímulo. O que se espera para 2021 é que se observe o teto, se controle gastos e a economia se recupere. O importante é que não se imagine que não há solução. O Brasil tem grande rigidez nos gastos públicos, com aumentos automáticos de vencimentos que dificultam a redução dos gastos. O importante é aprovar as reformas.