O MERCADO AINDA ESTÁ VIRANDO

25 de dezembro de 2019 • Rumos

Por: Por Gilberto Duarte de Abreu Filho (*)

Já tratamos nesta coluna, há algum tempo, sobre a virada do mercado imobiliário. A boa notícia é que podemos afirmar que ela já aconteceu. Já temos mais de 18 meses de crescimento de produção e, nos últimos três meses, voltamos a patamares mais próximos ao pré- crise. Indicadores de mercado tais como novos lançamentos (publicados pela Abrainc) e preços (IGMI-R da Abecip) demonstram que o mercado está novamente aquecido, trazendo mais investimentos e trabalho para nosso setor. Então, por que o título ainda é “O Mercado Ainda Está Virando?”

 

Este novo momento de mercado, ao contrário do que aconteceu no passado, está sendo impulsionado por todos os bancos e não apenas pelos financiadores públicos, como acontecia no passado. A entrada com força dos bancos privados com inovações de preço, serviços e condições de pagamento são o novo motor do mercado. O movimento não parou e a Caixa Econômica Federal (CEF) lançou produtos igualmente relevantes como linhas indexadas à inflação, um movimento que deverá ser uma nova tendência de mercado. Estamos indo em direção ao capitalismo no financiamento imobiliário, sistema econômico em que a concorrência e a competência são os motores de progresso.

 

Financiar o crédito imobiliário é um grande negócio, que não precisa depender de direcionamentos e regras de governo. Fica claro que o maior incentivo que o setor precisa ter é economia estável e redução de burocracia. E o mercado ocupará os espaços disponíveis.

 

No entanto, os ajustes macroeconômicos e microeconômicos necessários para garantir a perenidade deste movimento ainda não estão concluídos. Seguimos carregando barreiras e paradigmas que precisam ser mudados para fomentar a produção, a criação de valor e, como consequência, o crescimento do emprego no País. Nesta ordem sim, porque é a força empresarial que cria empregos. No meio empresarial, há um consenso sobre isso. Por outro lado, não vemos esse mesmo nível de consenso na classe política. Em parte, porque esta mesma classe empresarial quer a transformação, mas teme abrir mão de proteções setoriais conquistadas no passado.

 

O mercado, entendido não só como a atividade medida por indicadores, mas também por todos os atores que o representam, ainda não fez esta transição – sair do temor de abrir mão de proteções para a crença em um mercado de juros baixos perene, que impulsiona de verdade o financiamento imobiliário. A todo e qualquer sinal de liberalização do crédito imobiliário ou do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), surgem forças contrárias que querem manter suas reservas de mercado. O mesmo acontece em vários outros setores representados no Congresso, o que atrasa a modernização do País.

 

Na prática, o tempo está mostrando que modelo de proteção e direcionamento estatal é obsoleto e, como diz na gíria popular, está “caindo de maduro”. Isso já aconteceu com no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cuja mudança de atuação permitiu a emergência de um mercado de capitais dinâmico, e com o crédito rural, onde já predominam recursos de mercado. O mercado imobiliário ainda parece ter optado por ser a última trincheira. Mas mudar isso será apenas questão de tempo.

 

Nossa força política tem que estar orientada para apoiar várias reformas que têm sido propostas pelo atual governo no sentido de controlar gastos, modernizar o estado e fomentar a iniciativa privada. Mesmo que, para isso, o setor tenha que abrir mão de alguns “benefícios” do passado. Já há sinais que já temos parte dos novos líderes com uma visão mais modernizadora, liberalista e aberta à competição. Esta é a transformação necessária para um setor que crescerá, mas que ainda pode muito mais.

 

 

(*) Gilberto Duarte de Abreu Filho é presidente da Abecip.